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 parede
  de homens

Quantidade de mulheres atuando

    como vereadoras de Itatiba é

  a mesma de 20 anos atrás

Dois grandes corredores circundam o saguão da Câmara Municipal de Itatiba. Um deles exibe uma parede de homens, retratos dos incontáveis presidentes que a Casa já teve. No último quadro da fileira de cima, há uma mulher.


Lia de Araújo Oliveira Marchi foi a primeira vereadora do município, em 1982, e reeleita em 1988. No início dos anos 90, ela se tornou a primeira mulher a assumir a presidência da Câmara. Primeira e única, até hoje. 


As políticas criadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para diminuir a desigualdade de gênero e a sub-representatividade de mulheres na política brasileira não transparecem grandes sinais de efeito em Itatiba. Desde o pioneirismo de Lia, só outras oito mulheres foram eleitas vereadoras, apesar da maioria da população ser feminina há mais de uma década.

Políticas públicas criadas para garantir maior representatividade política

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1997: Aprovada a Lei das Eleições (9.504/1997) estabelecendo a reserva de no mínimo 30% e máximo de 70% das candidaturas para cada sexo (feminino e masculino) nas eleições proporcionais, que formam os legislativos municipais, estaduais e federal;


2009: Aprovada a Lei 12.034/2009 que alterou a Lei das Eleições para que a cota dos 30%-70% seja devidamente preenchida por candidaturas de cada sexo. Ficou determinado que no mínimo 5% dos recursos do Fundo Partidário deveriam ir para programas de incentivo às mulheres na política;


2014-2015: TSE passa a monitorar o cumprimento da cota e a multar os partidos que não aplicarem os recursos do Fundo em 12,5% sobre o percentual mínimo. Legendas que descumpriam a cota antes da determinação foram perdoadas pela Justiça Eleitoral;


2018: TSE determina que 30% dos recursos públicos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e do tempo gratuito de propaganda devem ser destinados às mulheres. A cota foi estendida para candidaturas de pessoas negras posteriormente;


2022: Emenda Constitucional 117/2022 estabelece definitivamente que os recursos públicos devem ser destinados de maneira proporcional à quantidade de candidatas mulheres. Partidos que descumpriram as legislações anteriores foram perdoados pela terceira vez;


2024: Congresso aprova a PEC da Anistia (Emenda Constitucional 9/2023), perdoando pela quarta vez as multas e sanções dos partidos que descumpriam as cotas, além de limitar em 30% os recursos destinados às candidaturas de pessoas negras;

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          Leia aqui um histórico completo das ações afirmativas de gênero na política

brasileira elaborado pelo Nexo.​

Em 41% das cidades brasileiras houve um aumento de mulheres eleitas nos legislativos municipais entre os dois últimos pleitos, de acordo com o relatório Desigualdades de Gênero e Raça na Política Brasileira do Instituto Alziras.

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A quantidade de vereadoras em Itatiba caiu pela metade, de quatro para duas, no entanto. A presença de mulheres negras é ainda menor: desde que o TSE passou a coletar dados de cor e raça sobre as pessoas candidatas, em 2016, uma única mulher negra foi eleita no município.

Esse cenário presente em Itatiba de baixo sucesso das candidaturas femininas em eleições, mesmo após a criação das ações afirmativas, vale para os demais municípios brasileiros, afirma a analista sênior de transparência e integridade da Transparência Brasil e mestranda em Ciência Política pela Universidade de São Paulo Bianca Berti.

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Ela explica que faltam mecanismos no sistema eleitoral brasileiro que funcionariam em conjunto com as cotas para garantir sua efetividade. Isso inclui mudar o sistema de votação proporcional para que a população vote diretamente no partido e punir, de fato, casos de descumprimento das regras, por exemplo.

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Um problema ainda maior, segundo Berti, é a falta de comprometimento dos partidos em equilibrar as condições desiguais de disputa entre mulheres e homens e em garantir que a eleição de suas candidatas seja possível.

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“Tanto para a construção de capital político quanto para a obtenção de recursos de campanha, os partidos são essenciais. Mas eles tendem a ser declaradamente resistentes aos fracos mecanismos de ampliação da representatividade, como podemos verificar na aprovação da PEC da Anistia”, aponta a analista.

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A atual vereadora Leila Bedani (PSD) se incomoda com o fato de mulheres serem usadas pelos partidos apenas para o cumprimento da cota, sem que haja o devido direcionamento sobre como construir uma base eleitoral e conexões. “A partir do momento em que você assina a ficha de filiação e sai candidata, você só vai ter informação se você buscar. Ninguém ensina você a fazer política”, expõe.

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Ela percebeu que havia sido usada quando ia concorrer por sua reeleição à Câmara, em 2020. Leila soube por outras pessoas que a insistência do partido para que ela mantivesse a filiação de sua candidatura se dava por interesse em somar os votos que ela receberia para atingir o quociente eleitoral. Na eleição seguinte, se lançou com outra legenda e foi a pessoa mais votada.

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O caráter utilitário que os partidos atribuem a mulheres também é percebido pela vereadora Luciana Bernardo (PDT). De acordo com ela, a recepção das legendas é excelente, já que é preciso cumprir a cota de gênero e há dificuldades em encontrar mulheres que desejam se candidatar, mas o suporte à construção de uma carreira política à longo prazo varia conforme o partido.

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Sem apoio do partido, as mulheres enfrentam barreiras para chegar na Câmara e depois para se reeleger. O contraste é claro: enquanto vereadores como Ailton Fumachi (PRD) e Flávio Monte (DEM) estão em seus 6º e 5º mandatos consecutivos, respectivamente, quatro das nove vereadoras que Itatiba já teve alcançaram uma vaga na Câmara mais de uma vez, nenhuma por mais de três mandatos.

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A analista Bianca Berti avalia ser comum que homens ocupem esses espaços ao longo de décadas e mulheres não, já que o simples gênero das candidatas dificulta a mobilização de capital político, recursos e de uma rede de boas relações que viabilizam uma carreira pública duradoura.

Representatividade de cor e raça reduzida

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Se a corrida política é cheia de barreiras para mulheres em geral, as pretas, pardas, indígenas e amarelas estão em desvantagem maior ainda. Embora representem uma parcela significativa da população, a análise do Instituto Alziras indica que mulheres não brancas representam 17% das candidaturas e 6% dos eleitos nos legislativos municipais de todo o Brasil em 2020.​​

Representatividade de cor e raça reduzida

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Se a corrida política é cheia de barreiras para mulheres em geral, as pretas, pardas, indígenas e amarelas estão em desvantagem maior ainda. Embora representem uma parcela significativa da população, a análise do Instituto Alziras indica que mulheres não brancas representam 17% das candidaturas e 6% dos eleitos nos legislativos municipais de todo o Brasil em 2020.​​

Elizabet Gonçalves Pinheiro Tsumura, conhecida como a Bete da Saúde ou Bete enfermeira do bairro Morro Azul, foi a única mulher negra que Itatiba teve como vereadora. Eleita em 2016, ela deixou sua vaga na Câmara para assumir o cargo de Secretária de Ação Social, Trabalho e Renda do município no ano seguinte. Evair Piovesana (PL) ocupou sua cadeira no legislativo até o segundo semestre de 2019, quando Elizabet retomou seu mandato.

“Há um mito de que mulher não se interessa por política”

As mulheres representam 46% das filiações partidárias de 2024, indicam os dados do TSE. O número prova para a vereadora Luciana que o desinteresse feminino na política é um mito. “O que acontece é que a mulher sempre esteve nos bastidores, arrumando a mesa do café, empunhando bandeira na rua e ajudando a organizar as reuniões. Mas a mulher nunca esteve no poder”, critica.

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O distanciamento dos espaços de poder se deve a uma “desigualdade estrutural, intrínseca ao funcionamento de uma sociedade patriarcal que favorece o acesso dos homens à arena pública”, esclarece a analista Bianca Berti. Essa estrutura opressiva faz as mulheres tenderem a construir suas relações sociais pautadas na vida privada, o que influencia a entrada na política e o desempenho eleitoral.

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As vereadoras asseguram que a experiência de uma mulher ao se candidatar pela primeira vez é traumatizante, por isso quiseram desistir de tentar novamente.

 

Quando Luciana rompeu a bolha para a vida pública e conquistou uma cadeira na Câmara, em 2020, enfrentou resistência dos colegas homens e precisou provar o seu trabalho. Para ela, os homens incentivam as mulheres a entrarem na política desde que elas não tomem o lugar deles.

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No ritmo lento em que cresce a presença feminina em espaços de poder, seja nas prefeituras, nos legislativos municipais e estaduais, ou no comando da nação, levará 144 anos para o Brasil alcançar a equidade de gênero na política, segundo estimativa do Instituto Alziras. Nesse decorrer, quase seria possível fundar outra cidade de Itatiba, que tem 167 anos de história.

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Na tentativa de diminuir a vantagem dos homens nessa corrida, Leila tem ministrado cursos durante o período eleitoral para mulheres candidatas, nos quais compartilha seu conhecimento sobre posicionamento, construção de uma agenda de atuação e planejamento de campanha.

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“O homem já cresce num lar com educação voltada para a política. A mulher não. Ninguém falou para mim ‘Leila, você vai ser vereadora’. Eu aprendi muito [a fazer política] na dor, então hoje tento ensinar um pouco para as mulheres que estão chegando”, declara a vereadora.

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O tempo estimado para o Brasil alcançar a equidade de gênero na política é assustador para Leila, mas ela acredita que Itatiba pode chegar lá mais cedo. Durante sua campanha às eleições de 2024, a vereadora viu uma população mais aberta às mulheres e até buscando candidatas para votar. Mas o resultado do pleito não foi tão favorável à representatividade.

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Foram disputadas 17 cadeiras na Câmara este ano, duas a mais do que nas últimas três eleições, aumento que segue o crescimento populacional do município. A população escolheu reeleger Leila e Luciana para mais um mandato, e Roselvira Passini (Republicanos), vereadora entre 2016 e 2020, também reconquistou a vaga na Casa. Na prática, Itatiba continua com o percentual de vereadoras abaixo dos 20%, assim como no início deste século. A diferença é que agora serão três mulheres fazendo política em meio a dezesseis homens pelos próximos quatro anos.

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Projeto de jornalismo experimental que utiliza inteligência artifical no auxílio da análise de dados. Consulte a metologia na seção "sobre".

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